A escola que escolhemos!
Um dia, ao folhear uma apostila
de uma criança de três anos, notei que numa atividade de recorte e
monte o quebra-cabeça da figura, a professora registrou: "Foi explicado
várias vezes, mas não conseguiu."
Imediatamente um pensamento suscitou: "Uma criança de três anos que
não consegue preencher um exercício, deve receber o registro de que não
conseguiu ou a escola esta propondo algo que não corresponde ao seu
desenvolvimento motor, cognitivo ?"
Infelizmente, um pai leigo na dinâmica de uma escola, de como se ensina e como se aprende ao se deparar com um registro deste tipo se preocupa a ponto de depositar no filho pensamentos de frustração do tipo: "Meu filho está com dificuldade" e normalmente não questiona:" O que foi proposto e como meu filho elabora isso?".
Sei que muitas das minhas colegas de profissão podem ficar encolerizadas com minha colocação, mas o fato é que se uma criança não aprende, o professor, por meio de suas estratégias, procedimentos didáticos e conceitos teóricos, não está conseguindo atingí-lo. Por mais que isso nos frustre, incomode, é a realidade!
Logicamente, não atribuo somente a nós professores esta responsabilidade. Mas a todo o contexto: Família implicada com o aprendizado dos filhos, alunos que demonstram estar interessados, estrutura de trabalho, apoio pedagógico... Mas no final, esta é uma tarefa nossa.
Também tenho notado crianças
próximas na faixa dos oito aos dez anos, consideradas BOAS ALUNAS
de renomadas escolas, pedindo que os pais tirarem-nas de lá. E os pais ignorando, porque consideram que aquela é uma ótima escola!
Mas ótimo é o que? Uma escola que devasta o prazer pelo aprender por tanta pressão?
O
problema todo é o resquício que estas experiências dolorosas vão
repercutir na vida escolar das crianças como alunos e estas
experiências refletirão nas suas vidas como aprendizes o resto de suas vidas.
Tenho uma amiga que adorava estudar e ama crianças. No Ensino Médio, decidiu se matricular num colégio de renome, o mais forte, pois desejava ser pediatra. A experiência de estudar grandes volumes de matéria sob pressão e exigência de corresponder foi tão traumática, que ela desistiu de seu sonho e agoxra diz-se odiar estudar.
Nesta toada, tenho
visto crianças em idade de estar encantada pelo mundo letrado com medo
de errar a construção das palavras...
Quem de nós não teve
uma má experiência escolar que foi tão marcante e decisiva para que
deixássemos de gostar daquela matéria ou daquele assunto?
Que fique bem claro que não me refiro aqui a exigências de âmbito escolar. Refiro-me à uma escolarização massacrante em que o sujeito aprendiz, que tem todo seu processo de aprendizagem em construção muitas vezes é ignorado em função de materiais e excessivas atividades apostiladas.
Tenho recebido alunos com nove anos com grande dificuldade de coordenar movimentos,
lateralidade, de organizar seu próprio material, cadernos, sua
mesa/pertences. Será que isso é à toa? Como Pedagoga, tenho a certeza
que não. Sei que o que lhes faltou nos anos de educação infantil (dos 2 aos 5 anos), foram
brincadeiras motoras, jogos simbólicos, sistematizações de rotinas,
atividades lúdicas que favorecessem a construção desta organização
cérebro/corpórea.
Por meio da sistematização da rotina, do material, a criança organiza seus próprios tempos internos, seu próprio mundo.
Da
mesma forma que por meio das brincadeiras lúdicas e simbólicas
(casinha, médico, dentista) a criança começa elaborar seu próprio papel,
experimentar lugares diferentes de ser, formas distintas de disputar,
gerenciar conflitos... Logicamente que tudo o que me refiro acontece
naturalmente, mas se houver a intencionalidade na mediação de um
professor, esse processo será muito mais rico.
Uma criança que
brinca no parque todos os dias, corre, sobe no trepa trepa, escorrega,
balança, se pendura, se relaciona com outras crianças, vai tomando consciência do seu próprio corpo, dos
espaços, vai construindo a dimensionalidade geográfica por meio da sua
construção motora.
Futuramente, ela será uma pessoa que terá noção de espaços para uma baliza, por exemplo.
Uma
criança que explora cores, risca, rabisca, joga sua expressão por meio
de diferentes suportes (papel, parede, cartolina, papelão) e meios (giz
de cera, tinta, carvão, palitos) será alguém menos preso a padrões capaz
de criar, inovar, surpreender com novas ideias.
Uma criança que é
repertoriada com contos de fadas e histórias infantis, vai construindo
subjetivamente identificações com personagens, vai desenvolvendo
mecanismos psíquicos que a levarão acreditar ser possível resolver
conflitos, considerar a existência do bem e do mal, enfim, são situações
valiosíssimas que favorecem a construção emocional das crianças.
Vejam que não estamos falando de exercícios escolarizados em momento algum.
Muitas escolas, preocupadas com o mercado, com expectativa de atender a demanda dos pais no fluxo da sociedade em que estamos vivendo, acabam por mercantilizar este processo e oferecem inúmeras atividades consecutivas de modo que as crianças não têm mais tempo como os pais.
São inseridas no inglês, na informática, no judô, no Kumon, na natação, no futebol, na catequese/escola bíblica, enfim, são tantas obrigações que as crianças desaprendem a brincar.
Para quê isso tudo? Para preencher seu tempo, para ficar preparada para o futuro!
Só nos tornamos adultos, civilizados, mais ou menos bem resolvidos, quanto mais tivermos uma infância rica.
Não defendo escolas fracas e sim escolas sérias que respeitam as teorias de aprendizagem fundamentadas em Piaget, Vigotsky e Wallon.
Piaget quando nos provou que a aprendizagem é um processo de construção, Vigotsky quando nos apresenta que todo sujeito aprende por zonas de desenvolvimento real e proximal (por contextualizações) e Wallon quando nos ensina que todo processo de aprendizagem é afetivo e permeado por relações afetivas.
Nenhum destes autores defendeu superproduções, exigências de índices, ignorar fases de desenvolvimento motor, cognitivo, afetivo e social.
Defendo que até o final da educação infantil a criança tenha TODO acesso a propostas lúdicas, simbólicas, interacionistas e construtivas.
Que no ensino fundamental I este aluno possa ser inserido no mundo letrado e transitar nele com proficiência e Muuuuuito prazer por aprender, pois estes anos serão cruciais para permanecerem estudantes ao longo da vida. Afinal, é o que bons profissionais são!
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