sábado, 2 de agosto de 2014
Educar não esta na moda!
A tragédia do menino com o braço dilacerado pelo tigre no zoológico de Cascavel denuncia que algo muito grave esta acontecendo na nossa sociedade. Um pai não ter a dimensão do seu papel de responsável pela preservação da vida de um filho?
Várias pessoas alarmadas o alertaram a fim de mobilizá-lo a assumir seu papel e NADA o mobilizou?
Parece que este homem que ocupava o lugar do adulto da relação, nunca teve consciência e clareza do que isso significava, de modo que sua negligência em assumir tal papel gerou que seu filho perdesse um braço.
Savater(1998), anuncia que estamos vivendo um momento social do culto à juventude, ao novo, ao inédito, onde não há espaço para a cultura, à experiência adquirida pela vida, à autoridade. Exercer papel de adulto dá trabalho, é cansativo, incomoda, desconforta.
Como educadora, tenho visto vários alunos na eminência de perderem membros, a vida, o futuro, os sonhos por serem conduzidos por adultos que não assumem seu papel. São crianças em anomia total, procurando alguém que olhe pra eles e diga: "Não!"
As crianças não comem mais comida! Não sabem o gosto de frutas porque dizem não gostar, mas nunca experimentaram. Tenho vários alunos com 9/10 anos com sobrepeso e com alto índice de colesterol.
Parece que estamos vivendo o colapso dos valores.
Até onde vamos desta maneira?
Estas crianças serão adultos e a situação ficará ainda mais caótica.
Por conta do consumo, vivemos uma dinâmica doentia de vida, corremos contra o tempo, pois ele urge e custa!
Nesta dinâmica do clique e resolva, estamos transformando nossas formas de viver e de nos relacionar. E as crianças que precisam e seguem modelos e referenciais, perdem braços!
Segundo Savater (1998), devido a demanda de consumo que vivemos, as mulheres passaram a trabalhar fora e assim as crianças deixaram de ter referenciais pontuais no período da infância. Os avós se não mantém-se trabalhando após a aposentadoria, também não querem assumir o papel de educadores de netos, pois suas vidas também estão pautadas nesta dinâmica de cultuar a vida, o corpo, a saúde, boa forma. Ou seja, não esta na moda educar!
Assim, é mais fácil deixar pra lá. Deixá-los decidirem sobre sua vida, rotina, se fazem tarefas ou não. Oferecer bolachas e guloseimas que enfrentar mercado, cozinha e alternativas para que a criança se interesse por se alimentar de coisas saudáveis. É mais fácil pensar que a criança já sabe o que faz, que é grande, inteligente, responsável para saber o que fazer, como fazer e quando fazer!
É mais fácil terceirizar pra escola, babá, professora os princípios de uma vida civilizada, com segurança, responsabilidade, ética...
Este infeliz desfecho somente ilustra a sociedade doente que estamos construindo e vivendo.
Isso se reflete na brutalidade dos roubos. Nunca se matou tão banalmente como hoje. Mata-se porque é mais fácil.
Um pequeno gesto de "faltei porque perdi a hora", sem que o pai perceba, apresenta à criança que numa situação que ela deverá ter responsabilidade, há possibilidade dela negligenciar e faltar porque perdeu a hora! Será que no futuro serão adultos responsáveis com compromissos e responsabilidades?
Alunos que fazem sua regra na rotina escolar, mentindo na justificativa da não realização de tarefas de casa, futuramente serão pessoas capazes de assumir compromisso e responsabilidade com as pessoas? Ou pior, consigo próprias, terão capacidade de ter metas, almejá-las e trabalhar em prol delas?
Hoje é feio envelhecer, por isso o apelo desenfreado por técnicas estéticas, alimentares e cirúrgicas. Até pra emagrecer hoje em dia basta cortar um pedaço do órgão ou colocar balão que engana os sentidos. Tudo simples e prático!
O problema todo é que esqueceram de facilitar o processo de desenvolvimento cognitivo, psíquico e emocional do humano!
Continuamos sendo humanos e complexos. E como tal, necessitamos, quando pequenos, de modelos, de referenciais, de bons exemplos. Necessitamos confiar nas pessoas adultas e que elas façam jus ao seu papel. Mas o que vemos é que nesta sociedade é bonito ser infantil, porque ser infantil significa ter desejos desenfreados. Significa acreditar em fantasias. Significa ser consumista!
Na sociedade do " a fila anda", ninguém tolera mais nada, não se tem mais a palavra como ponto de honra, um passa por cima do outro sem o menor constrangimento.
E assim, vamos nos debatendo vendo atrocidades como esta acontecendo,sentindo que nossos valores vazam por entre nossos dedos, lutando dia após dia para instituir valores nos alunos que passam pelas nossas mãos. Cansativo, desgastante, triste.
Imersos nessa esquizofrênica realidade, vivemos esperando ansiosamente o pagamento para comprar e consumir para acalmar nossos desejos. Até quando?
*http://maringa.odiario.com/policia/noticia/853272/garoto-tem-braco-dilacerado-por-tigre/
*Savater, Fernando.
O valor de educar. Trad. Monica Stahel. São Paulo: Martins Fontes, 1998.
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E somos nós professoras que sentimos na pele todos os dias as consequências deste modismo avesso.
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